15.10.15

Bob Dylan











Aquele bendito instrumento musical, a máquina de escrever, e os seus botões de onanizar tímpanos, as teclas, corpos fora do corpo, e sua inclinação para mudar o mundo, chover no deserto, doer sem dor, dizer sem ter dito, parar o tempo, nascer as vezes todas que for preciso, tem dias em que escolhe o homem certo para se fazer ouvir.
Receita infalível para canções perfeitas: sem filtros, mas com duas garrafas de vinho, um copo meio cheio e outro meio vazio, um estirador, duas mesas, uma cadeira, uma maço de cigarros, uma caneta e uma chávena de café. Papel suficiente para fazer bolas e atirar ao chão, ou ao ar, que vai dar ao mesmo. Esperar sentado pelo momento em que o corpo de um homem finalmente alinha com todas as estrelas, as troca por meia dúzia de linhas, deixa um pedaço da alma algures no universo.


9.9.11

As duas marcas de nascença de Alexander Galimov

Alexander Galimov, russo, jogador de hóquei em gelo, com 26 anos, canhoto, avançado direito, medalha de prata do campeonato do mundo de juniores em 2005, o mais antigo jogador do plantel do Lokomotiv Yaroslavl, não o mais velho, mas o mais antigo, está lá desde 2004 e essa era até ontem ao inicio da tarde a única marca de nascença que o distinguia naquele grupo de todos os outros hoquistas da equipa, o facto de entre todos ter sido o primeiro a chegar. Ele, de 26 anos, avançado canhoto, fintou o destino de todo o grupo e evitou a morte no fogo, no ferro e no ar, na água e no chão. A nova marca de nascença queimou-lhe o corpo inteiro, as notícias em cima da hora disseram que ele tinha morrido, mas ele não, ele tinha sido o primeiro a chegar, vai ser o último a partir, as notícias dizem agora que o corpo de Alexander Galimov não morreu no bloco operatório e a internet que lhe tinha dado a extrema unção já se actualizou e manda dizer que o estado é crítico mas que não é defunto.

4.9.11

As palavras de amor não têm domingo

Domingo, cidade do Porto, o café custa trinta cêntimos na máquina de bebidas quentes do emprego  ao lado e antes da porta de vidro, em frente à porta do elevador, no segundo andar, numa plataforma intermédia dos lanços dos degraus, a espreitar a subida para o terceiro piso, a máquina, ao serviço de jornalistas, médicos, produtores, enfermeiros, reprodutores, gente de uma redacção de televisão e de uma clinica de fertilidade.
A clínica está fechada ao domingo, a televisão não, a televisão não desliga a ficha, mas a clínica sim, desliga-se deste prédio aos domingos e aos domingos aqui tudo é mais quieto e mais silêncio, é verdade que há menos jornalistas e menos conversas, mas a verdade é que este vazio é porque hoje, domingo, não chegam casais de mão dada e não sobem o elevador, não sobem os degraus, não fazem pausar as conversas dos fumadores em frente à máquina do café quando passam, não fazem passar, diante das nossas vidas, os projectos de amor, nem as palavras de mão dada, nem a ilusão da felicidade medicamente assistida.

As palavras de amor não têm domingo é o título da canção francesa do festival da eurovisão de 1987. Intérprete, Cristine Minier. Posição, 14º lugar. Pontos, 44. Poucos votos no amor sem pausas

1.9.11

O senhor proprietário

Estou na posse de uma tarde livre, de uma praia vazia, de um atlântico norte quieto às ordens de uma bandeira amarela inesperadamente no papel de peixe fora de água. Tenho ao alcance das mãos o teclado de um telefone pequeno para o tamanho dos dedos, tenho ao alcance das mãos um tubo de papel com açúcar, uma chávena com café e um pires com a chávena. Tenho um pára-vento tão desnecessário quanto a bandeira a amarela, tenho a necessidade de o contar, tenho um estrado de madeira por baixo dos pés até chegar à areia, tenho uma passadeira azul em rede até ao fim das linhas das barracas azuis. Tenho curiosidade sobre a temperatura da água do mar, tenho pena do mês de agosto e tenho setembro a nascer do sol.

29.8.11

A última hora

A velha história da ribeira do Porto fotografada do lado de Gaia acontece agora no telemóvel do Pedro, virado para o aço dos tabuleiros e do arco da ponte, com quatro barcos rabelos amarrados ao rio, azul escuro, de onde saltam as cores da madeira e da tinta amarela e das pipas. Vejo um ractângulo vermelho com o nome branco de uma marca de carros, espanhola, vejo o ceú azul mais claro, vejo o Porto em miniatura e vejo pela fofografia que o Pedro não está na rádio a cuidar do som. Está na rua a cuidar da imagem da cidade. E eu gosto.
O Pedro, e eu, estamos longe do caminhos longos do senhor Senkawa.O senhor Senkawa é um fotógrado japonês que gosta de futebol  do FC Tokio, que gosta de comer e que gosta de Gotemba (Gotemba é outra cidade japonesa) e que gosta de correr. Hoje correu quinze quilómetros numa hora, dezanove minutos e trinta e seis segundos. Equanto isso, o André pousou a carteira, pousou o ipad, numa mesa, ao lado do cinzeiro branco, pousado, na tal mesa que é castanha e pediu um café e deixou-se estar sentado a tirar partido da sombra das árvores.
Nesse intervalo do café, em casa, o Filipe deitou o gato e deitou cão em cima da manta manta rosa que está em cima de uma manta amarela que está em cima de um sofá. A Tânia tem uma blusa lilás e o cabelo apanhadoe uma madeixa loira solta no rosto. Sorri e o gato ronrona.
O António encontra o número trinta e sete em cima de portas, tira fotografias porque tem trinta e sete anos e partilha no Instagram.


22.8.11

A picante história de um campo de futebol loiro

Existe liberdade absoluta nos campos amarelos à entrada de uma aldeia nas proximidades da fronteira transmontana com a Espanha. O tractor andou ali naquela descida antes do almoço, primeiro andou cem metros perpendiculares à rua, para dentro do campo, e depois andou mais sessenta metros paralelos à rua e depois andou no interior desse rectângulo todo, entre duas balizas que ali estão o ano inteiro e que agora nos surgem mais à vista, depiladas de todos os cardos, as balizas, mas também o campo. Andou ali o tractor e andou ali um homem com duas redes às costas, vestiu as balizas para o jogo do fim de tarde, a seguir ao calor, entre os solteiros e os casados de Prado Gatão.
Os jogadores estavam onde estavam os copos de plástico e a rulote cinzenta e máquina da cerveja. Mais do que beber para matar a sede, estiveram a beber para o dia baixar a temperatura para mais longe dos quarenta graus.
Saberão mais as mulheres deste assunto seguinte, e também o sabem os homens dos século XXI: nenhuma depilação é definitiva. O campo de futebol loiro é um tapete de raízes secas e cardos. A terra tem a firmeza da jornada lavrada. As chuteiras vão mais ao fundo e os pés picam, avisam para o perigo das quedas desta espécie de jogo que aí vinha de faquires. Onde não havia cardos, nem rancos nem palha, havia todas as variáveis da merda das vacas e dos cordeiros, seca e nem tanto.
Existe liberdade absoluta nos campos amarelos à entrada de uma aldeia. Os jogadores pousaram os copos na praça central e estão a chegar e estacionam os carros junto à linha lateral, as motorizadas avançam pelas quatro linhas como bolas à solta, uma delas cai rasteirada pela roda da frente. O solteiro que ia a guiar e que saltou pelo guiador vai jogar com sangue nos pés e com sangue na alma. Acho mesmo que todos os solteiros vão jogar assim. Eu, que nunca casei, ao abrigo da nova lei de transferências, jogo na equipa dos casados e tenho direito a uma camisola cor de laranja em lã e de manga comprida.
O encontro mais importante do ano começa quando o dia tem trinta e dois graus e dezoito horas e quinze minutos. Quando o dia tem trinta e dois graus e dezoito horas e vinte minutos e eu tenho dois dribles seguidos, só não chego ao terceiro porque tenho a mão de um médio nas costas e o bico do pé de um defesa no tornozelo. Antes de cair, chego a ter tempo de desejar a sorte de cair em cima da merda, mas infelizmente todas aquelas cambalhotas até parar foram cardos, foram prosas.
Voltei ao jogo na segunda parte. Empatámos dois dois com tremenda ajuda do apito no primeiro golo. Tivemos, às portas de Espanha, uma arbitragem à portuguesa.
Qual o melhor momento do encontro? O cordeiro na brasa, o palaçoulo na mão, a cortar a carne em cima da broa e o vinho tinto lavrado.

como os livros nos chegam às mãos

A mulher com o corpete vermelho passa os olhos azuis pelo rosto moreno de um homem, passa as mãos pela esbranquiçada capa de um livro, exibe o título e as unhas vermelhas, sorri, afasta o cabelo loiro, o homem e a mulher entrelaçam os braços, sobem o primeiro lanço de escadas dentro do hotel, procuram um elevador, encontram um quarto, ela é puta, ele não.
Belle é inglesa, tem um diário secreto, o diário secreto de uma call-girl, o corpo todo é uma máquina de fazer dinheiro, de fazer dinheiro como as mulheres fazem com o corpo, e as mãos até escrevem. Belle vive, conta, faz, diz, escreve, entra em casa, tira a puta do organismo, senta-se a ler um livro e quando está a ler chama-se Hanna, é uma rapariga em Londres, recém licenciada, tem um melhor amigo homem e nem ele sabe que o emprego numa multinacional é inventado e que a amiga responde por outro nome com a carteira aberta.
Billie Piper, cantora e actriz faz de Hanna e de Belle. Na cena que me prendeu, a loira de corpete vermelho entrega ao primeiro cliente da outra vida, com o qual mantém encontros esporádicos, antes de subirem para o quarto, e antes de ela desempenhar o papel de namoradinha com vontade, Belle entrega o livro que Hanna comprou e trouxe de casa dentro de uma mala preta: The Human Stain, de Phillip Roth.
Acabei de ver o episódio três da série um de Secret Diary of a Call Girl. Elaborei um roteiro secreto. Fiz catorze quilómetros de bicicleta em quarenta e tal minutos. Regressei a casa e tomei banho. Aqueci o jantar no micro-ondas, jantei e saí de casa. Tomei café na livraria, procurei o livro, mas A Mancha Humana estava esgotada. Deixei o meu número de telefone para avisarem da recepção do livro que ficou encomendado. Há-de chegar às minhas mãos como se estivesse a sair das mãos da Billie Piper.

26.7.11

Um dia nas corridas

O pau que um dia já tinha sido um ramo de uma ávore de fruto tinha uma ponta da forma de um coto e essa forma estava cravada na terra e uma ponta bifurcada: no meio do "v", um arame, esticado, impedia a roupa de bater no chão, evitava nova fadiga dos braços da mãe ou da avó.
O arame, na totalidade do próprio comprimento, mordido pelas molas de plástico, que não estavam ali para o comer, estavam ali a segurar calças, camisas, mangas curtas, meias, cuecas, cuecas, cuecas, meias, meias e meias, um casaco. Um ou outro par de coadores de café.
Em 1986 estava a começar a nossa volta ao mundo. A televisão era a janela que nos abria as portas. Quando estávamos prontos para voltar à rua, não o sabíamos mas éramos copistas de mãos vazias à disposição das tardes, talhados para replicar um jogo de futebol do mundial no México, onde deus desceu à terra pela última vez, as saudades das pedaladas do ciclismo do Sporting, um campeonato inteiro de Formula 1. Daqui em diante vamos prender estar história com as tais molas de plástico. Vamos morder os calcanhares à memória.
Uma mola amarela. A partes da mola onde se aperta para ela abrir a boca, nessa parte, em vez de apertar, afasta-se os dois lados com os dedos polegar e indicador de cada mão. Com cuidado para evitar o richote da mola. Com cuidado um dos lados em plástico fica liberto e depois liberta-se o outro da parte metálica. Como numa receita de cozinha, é preciso fazer uma coisa a seguir à outra. Agora é preciso voltar cada uma das partes planas para o chão. E já está! Dois carros de Formula 1 amarelos, a equipa Williams, o manicómio sobre rodas de Mansell e Piquet. As molas brancas, com um risco de marcador vermelho, a McLaren, o maço de tabaco de Prost e Roseberg. As molas verdes, a multicolor Benetton, roupinha arranjadinha do Berger e do Fabi. As molas brancas, com um risco azul, a Brabham, do recordista de corridas Patrese e a urna de De Angelis. As molas azuis, azuis de França, Ligier, armada gaulesa dos três mosqueteiros Laffite, Arnoux e Alliot. E um par de molas de madeira, pintado com um marcador preto, a Lotus de Dumfries e de Senna. E depois de tudo isto as mãos abriam estradas na areia do parque infantil, as mãos faziam as pistas dos desenhos dos circuitos da tv, as mãos empurravam os carros. No fim o champanhe sabia a gasosa e não havia meninas para dar beijinhos.

21.7.11

Respira fundo

Em passo de corrida às onze horas da noite mais vinte minutos arranca uma história seguramente candidata ao prémio móvel da economia da gramática se houvesse porque os dois únicos acentos são esta virgula e este ponto por extenso e a partir daqui vai ser até ao fim como foi até aqui ao ritmo médio de cinco minutos e trinta e quatro segundos por quilómetro vai ser a esta velocidade durante os próximos oito quilómetros a contar a partir de quando se começou a escrever em passo de corrida às onze horas da noite mais vinte minutos do dia vinte de julho um dia que vai acabar antes do fim desta corrida feita em média a uma velocidade pouco superior aos dez quilómetros por hora um andamento agradável sem forçar a mente e sem esforçar o corpo duas partes que têm de estar correr sempre para o mesmo lado caso contrário o atletismo deixa de ser uma actividade saudável e assume o significado da palavra tortura palavra que só vem aqui a este caso com o propósito único de explicar como é correr com o corpo e não conseguir correr com o cérebro e o contrário também e ainda bem que está tudo convenientemente explicado o que a dez quilómetros por hora só se consegue fazer se como foi anteriormente explicado o corpo e a mente estiveram a correr cada um com o seu pé e em simultâneo e saliente-se o contributo da temperatura do ar perto da meia-noite um aliado nestas coisas do caminhar por desporto relativamente mais depressa é que por um lado foda-se foda-se está para a corrida como um sinal de pontuação está para uma frase foda-se é uma pausa em andamento é a capacidade de respirar fundo sem ter de se recorrer à necessidade de parar e recorrer não é voltar a correr recorrer é querer outra vez o mesmo objectivo falhado imediatamente antes por isso se calhar recorrer é fugir para a frente mas correr apesar de ser andar para a frente com alguma pressa não é uma fuga é exactamente o contrário e antes do primeiro foda-se estava a decorrer a entrega do prémio de mérito e justiça à noite quando colocada ao serviço do corpo e neste particular os pulmões estão a correr em casa quando correm no escuro e no escuro é quando todos os músculos dos corpo melhor compreendem a dupla condição forçar relaxar forçar relaxar e só terminam o trabalho quando todos os habitantes do corpo do coração aos pêlos do nariz sem ordem de importância aprovam por unanimidade a paragem uns dos outros relativamente à tarefa que estavam a desempenhar com suor de norte a sul da pele e um esqueleto feliz da vida ao perceber o significado das manobras da língua ao dizer missão cumprida

18.7.11

Depois da liberdade

Esta liberdade é uma palavra muito forte que vem da América do norte, foi editada no ano passado nesse mesmo território, foi traduzida para português pela Maria João Freire de Andrade, foi revista a tradução pelo José João Leiria, foi capa de uma revista americana cujo nome em português é tempo. A liberdade é um livro com seiscentas e oitentas quatro páginas, do americano Jonathan Franzen, é um livro do tamanho do felisteu Golias que me foi oferecido pelo gigante francês da cultura, Fnac, Fédération Nationale d'Achats des Cadres,federação nacional de compradores de quadros, a tradução é minha. Este liberdade foi uma oferta em retribuição da compra desta tábua de vidro onde também, entre muitas outras liberdades, se pode escrever.
Tenho esta liberdade há cerca de duas semanas e vou ter esta liberdade durante as próximas trezentas e setenta e quatro páginas, que é número a seguir ao qual vem o fim. Vou ter saudades dos Berglunds, mãe e filho principalmente, e do Katz. Vou ter saudades do jeito que este Golias das prateleiras dá quando posto em função de almofada, sobre a toalha, na praia, de frente para o sol. Os livros magros não são muito desta estação.
Agradeço, portanto, esta liberdade ao retalho francês, ao escritor americano, à sociedade americana também, e à revista chamada tempo. A seguir vou pegar num português chamado Valter, que me autografou o livro onde me pede para não o deixar cair no esquecimentos, ao livro, e através do qual espero ficar a saber mais qualquer coisinha da máquina de fazer espanhóis.

(achei vinte euros no chão de uma rua enquanto corria feliz da vida com um par de sapatilhas novas. Desses vinte euros, gastei dezasseis no livro Tia Júlia e o Escrevedor, do peruano Mario Vargas Llosa, desse continente abaixo da América do norte, a sul dessa liberdade já Em cima descrita, essa mancha de terra e máquina de fazer escritores de língua espanhola)

(feitas a contas: três livros por onze euros, preço do português, com cinquenta por cento de desconto na feira do livro)

Os quadros brancos do mundo inteiro

Em comum aos dias 5, 7 e 15 havia uma linha onde o texto tinha começado e uma linha de onde o texto não tinha saído. O mês de Julho estava a construir um caderno mudo. Em cada um dos três dias, o teclado deu passos inseguros, respostas vagas para o caminho a tomar, o teclado recuou com os dedos e apagou todos os começos de frase e deixou a página em branco, como ela estava no início, como ela se apresentava no fim,  um prato limpo, sem carne nem peixe nem gordura nem massa nem folhas de alface nem cebola, um grão de arroz que fosse, em matéria de prova, a evidência de ter existido alimento (as ideias) mas de não ter havido fome (as palavras).

O dia 5. O dia 5 tinha um título e pouco de mais de um título. Plácido domingo, entitulava-se o dia 5. Era para ter sido uma breve história a contar as nove horas da manhã de um domingo deserto no Porto, deserto esverdeado por uma miragem de um homem a correr sozinho na descida da Boavista para o parque da cidade. Depois, uma hora mais tarde, o mesmo homem subia a mesma avenida, o mesmo deserto e passava dessa vez a caminhar. Tinha suor no rosto no peito e nas costas, uma camisola azul de alças, uns calções azuis, o jornal A Bola na mão direita, dobrado, e ele a ler a última página enquanto caminhava e trazia na mão esquerda um saco de papel castanho que talvez fosse o saco do pão. A seguir ao almoço, quando os carros e as pessoas tinham acabado com o deserto do Porto, o mesmo homem voltou a descer a avenida, calçava umas sapatilhas diferentes,  o braço onde tinha o jornal abraçava agora o ombro direito de uma senhora vestida com um fato de treino branco. Já não vi o Jorge Plácido desde o tempo em que ele subia e descia os campos de futebol naquela caminho tantas vezes deserto entre as balizas. Daí o Plácido do domingo, nada a ver com o tenor, mas sim com a paz de um casal que deve estar a escolher uma mesa recatada e a pedir dois cafés.

O dia 7. O dia 7 fugiu. Confesso que não me lembro. Continha um episódio urbano, atropelado por uma fragilidade criativa gigante. Deixou de existir.

O dia 15. O dia 15 acordou a fazer perguntas sobre os quadros brancos do mundo inteiro. Focando até ficar nítido: entenda-se por quadros brancos as histórias que um dia, por que motivo, não tiveram a vez de serem contadas. Pelo contador avaro, pelo contador seco, desligado, espremido, adiado, dormente, branco.
O museu da páginas vazias fechou por tempo indeterminado

23.6.11

A compra (1)




A importância da cor, nesta compra, posso explicar em dois tempos: ou preta ou verde escura. São estas as duas únicas hipóteses para a tinta que há-de pintar o quadro da minha futura bicicleta. O quadro terá de ser adulto, adulto no sentido de clássico, um que me permita pedalar, sem parecer deslocado do quadro, quadro aqui enquanto tela e enquanto esqueleto da bicicleta, esteja eu metido na compostura de um fato, na casualidade de uns jeans ou na descontração total de uns calções. É com esta lógica de conjugação que chegamos aos pedais. Os pedais não podem fugir ao padrão de critério anterior e deverão calçar com o mesmo à vontade a borracha dos chinelos, a pele dos sapatos e a lona das sapatilhas. Do selim não se espera um sofá, apenas se exige conforto. De resto, a buzina que apita, o guiador que guie e as mudanças que mudem. E claro, que os travões travem

15.6.11

Crónica das nuvens que passam

Um homem aproxima-se do areal calçado com dois chinelos de dedo azuis, carrega num dos ombros um pára-vento azul enrolado, só as pontas de madeira saem fora do tecido, vem com uma mochila cinzenta nas costas, veste uma t-shirt cinzenta, as letras brancas escrevem uma palavra no peito, para baixo, na cintura, tem uns calçōes azuis em tecido fino, por baixo dos quais traz uns calções pretos em licra, mais curtos, para apanhar sol na maior superfície possível do corpo. Antes de chegar e de pousar no chão a toalha vermelha, antes de tirar a t-shirt, os calções e os chinelos de dedo, este homem, este rosto barbado, protegido da luz do dia por duas lentes de vidro verde escuro e aros dourados, este homem tem a cor do céu e das nuvens que passam.

24.5.11

Vivo

O último dia acabou às dez horas da noite e catorze minutos e vinte e oito segundos, num rectângulo constituído por uma tábua em madeira de cerejeira, colada a uma esponja amarela sem marca nem referência em particular, era esponja, cobertas as duas por recurso a um material sintético de cor preta, aproximado da napa em termos de aspecto, mas podendo não o ser, pela inaptidão em determinar peles e copiados, estando a napa, vamos dar-lhe seja como for essa designação, agarrada à parte inferior da tábua com agrafos da dimensão de quinze milímetros, acobreados,  havendo três desaparecido com o tempo e com o uso, enquanto que os resistentes permaneceram cravados, em linha recta, sensivelmente à distância de um palmo de uma mão adulta e de homem, e cuja totalidade deles deixava ver, de forma evidente, partes de ferrugem, não tendo deixado de cumprir, por via desse desgaste natural, o efeito de esticar a pele e de prender a esponja à tábua, vivendo as três partes, presas por arames interrompidos, uma vida inseparável. Havia dias em que alguém morria deitado de costas para esta maca. Hoje foi um desses dias. 

3.5.11

Jogada de laboratório

Encerrou a entrada de uma divisão à qual todos chamavam sótão e ao fechar o alçapão, antes de o fazer, pendurou uma tira de papel do tamanho de uma matrícula de um automóvel, e nessa placa escreveu laboratório, palavra que às vezes estava bem de ler, mas que muito depressa deixava de estar, bastava vir alguém do lado contrário da sala. Laboratório era então o que dizia o tecto da sala, com o homem fechado na parte de cima.
Demorou uma hora, duas horas, três horas. Demorou um dia, dois dias três dias. Tinha acabado de inventar uma espécie de vegetação verde com três centímetros de comprimento e três milímetros de largura. Chamou-lhe relva e produziu-a em quantidades. Inventou-a para ser lançada à terra e para ficar cravada no chão. Era verde. E muito mais consistente do que o projecto inicial, ao qual tinha atribuído o nome experimental de semente.
Encontrou à porta de casa uma lata de tinta branca. Sentou as nádegas em cima. Foi buscar uma trincha e começou a desenhar linhas rectas. Quando acabou a pintura tinha desenhado um rectângulo. Não serviu para o deixar satisfeito. Partiu o rectângulo em dois quadrados com um risco ao meio. Fico contente, andou à roda, desenhou um círculo e sentou-se no meio, a contemplar a obra inacabada. Pensou em desenhar dois rectângulos pequenos em cada uma das extremidades do rectângulo gigante inicial. E desenhou.  Fez mais dois a seguir aos pequenos para que os pequenos não ficassem sós. Em cada um desses lados ficou sentado a pensar e nesses locais ficaram dois pontos, duas marcas do fundo do mesmo balde. Ao anoitecer decidiu fazer duas meias luas. Fez.
E quando amanhã já era o outro dia, acordou a sonhar com outros objectivos. Rectângulos de ferro e em pé. Fez dois. Um para cada lado. No fim continuava descontente e chegou à conclusão que os dois últimos rectângulos poderiam ser confundidos com portas e podia vir gente e entrar. Fechou os dois com redes. Ao fechar os ferros, ocorreu-lhe a ideia de mandar fechar o ar. Pegou numa linha, numa agulha, desfez o couro do casaco em bocados. Descobriu que o ar cosido tinha um ar arredondado. Chamou-lhe bola porque lhe tinha dado a fome e aquela coisa nova tinha forma de pão, com boa vontade.
Inventou o futebol. Achou-se o melhor do mundo.

27.4.11

O maior desperdício de talento do mundo

Um homem alto, sem cabelo, morfologicamente perfeito para o emprego que desempenha. É carregador de pianos e é um dos melhores do mundo. Não sabe tocar o instrumento, apesar de já ter ouvido falar nas notas, de saber na ponta língua os nomes de cada uma com cada uma das variações. Não sabe tocar piano e não lhe faz falta. Tem outra missão absolutamente diferente da música, estando na profissão de viver à custa dela, complementando-a e tornando-a possível, porque sem ele, os dedos virtuosos seguramente, dos pianistas, não tinham como conseguir levar o piano do quarto para a sala, da sala para a rua, da rua para o palco. Hoje o pianista teve um dia não, esmurrou a madeira, partiu as cordas, soltou as teclas. O talento do pianista ficou feito numa sinfonia para surdos. O piano é o Real Madrid. O carregador é o Pepe. Foi um erro de uma fracção de segundo, que não merece uma crucificação eterna. As rápidas melhoras. Que volte ainda mais forte.

E o maestro, o que fez o maestro?
O maestro caiu no mesmo instante e quando lhe perguntaram porque também tinha caído, quis dizer em defesa do grupo que o pecado do carregador tinha outra origem que não a do carregador em si. Num minuto, a orquestra perdeu o corpo mais forte e perdeu o cérebro e deixou de ser uma orquestra. A música do descontrolo emocial é uma composição horrível, seja ela ou não assinada pelo melhor de todos os maestros. Assisti hoje ao maior desperdício de talento mundo. Força José.

26.4.11

entretanto

O polegar e o indicador fazem uma tenaz. Os dois, em conjunto e em aperto, seguram um cigarro que arde como se não houvesse bombeiros no mundo. O homem a quem pertencem estes dois dedos caminha em todas as direcções, não caminhando na direcção de algum lado. Anda um metro, regressa, caminha mais dois, regressa, atravessa a rua, chega a estar perto da relva do jardim, regressa, volta a estar neste sítio onde está em modo intermitente. O telefone não toca. O telefone não toca. Lá dentro, no escritório, o telefone não toca. E a barriga da perna não treme, o telefone não vibra, do bolso das calças também não chegam notícias. A tenaz abriu e deixou cair um filtro na calçada portuguesa.
Está à porta da empresa um homem branco de pele castanha. A cabeça está a suar e não se pode dizer que esteja sozinha nesse estado de espírito. As costas estão, porque a camisa não deixa esconder a verdade. Os sovacos estão muito. O peito, na parte onde os homens têm pêlos, está. Está meio corpo do sexo masculino a suar, no limite de um passeio. Na rua a vida segue os destinos que tem de seguir, a vinte, a trinta, a cinquenta quilómetros por hora e, em alguns casos, a pé. A parte inferior do corpo, esconde com um par de calças de fazenda cor de safari, se está a a sofrer da mesma condenação. O movimento das pernas denuncia pé ante pé todos os sinais de um homem inquieto. Outro cigarro perde cinza ao deixar-se tamborilar pelos dedos mindinho, médio e anelar. Tantos nervos na mão esquerda. E a Cíntia que não diz nada.

24.4.11

e a viagem lá foi andando

Quantas pessoas estariam em casa do morto, estava morta por saber desde que a apanharam em casa    hoje à tarde a prima da Cíntia, que só ia com eles para não ficar o fim-de-semana inteiro sem nada para fazer e sem ninguém com quem estar, porque ela não conhecia o coitado que tinha morrido. Como conhecia há mais de vinte anos a amiga dele, por virtude de serem primas, deu-se-lhe para ir, mas só se lhe deu mesmo à última, quando os outros três já estavam a caminho e tiveram de voltar a casa dela, tendo ela antes pegado no telefone e ligado e dito acham que ainda vou a tempo de dizer sim, ou não? E eles tenham resmungado olha esta, que coisa, que falta de coisa, ainda por cima, agora esta, é deixá-la ficar, se não quis vir não vem, mas elas agora quer e além disso é minha prima e vai ficar sozinha, defendeu-se a Cíntia e defendeu a prima, e o Heitor que não ia no bancod e trás porque enjoava já estava a dizer ela vem, mas não me vem tirar o lugar, vá ali para o lado do Alfonso, e olhou pelo retrovisor esticando o pescoço até conseguir ver o lugar vazio nas costas da condutora, a prima, a dona do volante e senhora da conversa. Quantos pessoas estariam em casa do morto, enchia a cabeça com isto cá fora, pois lá dentro nenhum dos outros três podia voltar ouvir a mesma pergunta que da última vez que a vez, até o Alfonso, o mais calado dos dois homens, abriu a sua parte na conversa para dizer sei ou o caralho e depois daquilo não houve mais moral para interrogações. Retirou a mangueira do carro, pagou os dez euros da conta com os dez euros enrodilhados da mão direita, arranjou a franja antes de a porta de vidro se abrir pela aproximação do seu corpo ao sensor e no seu andar, porventura ninguém o diria, caminhava uma dor patológica, uma incerteza absoluta, os miolos devorados por não saber ao certo, nem de longe, nem de perto, do tamanho do funeral. Reentrou no carro, isto dá cada vez menos litros, queixou-se da gasolina, assentindo as outras três cabeças. Seguiram viagem.

23.4.11

O começo do terceiro capítulo

Assomaram duas cabeças na chegada à bomba de gasolina quando já era de noite. Eram duas mulheres nos lugares da frente de um carro branco. O carro onde vinham, de onde vinham, e para onde iriam, e daí para onde continuariam a ir se deus quisesse e motor deixasse, esse carro era um ferro velho com nome de musa. Mas disso elas não deviam saber, disso da musa. Para elas era um Clio, era um Renô que se escrevia Renault, mas que não se lia Renault, lia-se Renô. Um carro francês e muito velho, que andava a ser comido pelo tempo há mais de vinte anos. Branco por fora, perfume e cigarros por dentro, era o que dava para ver deste lugar em frente à máquina de café.
Uma dragona sobre o rosto da mulher que vinha a conduzir retirava o resto da identidade à senhora. Adivinhava-se no que ficava à mostra da cara a idade, trinta e oito, quarenta e era só isso. A dragona marcava aquela pessoa como quando está nos ombros de um general. Define e ponto. Mas disso elas não deviam saber, disso do cabelo desta loira ter sido cortado nos mesmos moldes dos alfaiates das casas da fardas no século dezoito. Disso elas não deviam saber, disso das franjas com fios de seda e de ouro, iguais na cabeça da condutora , a pender sobre a testa, como nos braços dos militares. 
A outra senhora saiu quando o carro parou pela porta do lado direito. Evitou sujar a mão na mangueira com a nota de dez euros enrolada que trazia na mão. Marcou dez euros na tecla para abastecer, e ao abastecer olhou para vários lados, entre eles para mim. Aquela era uma dragona preta. Um franja retinta por cima de dois olhos crispados, de uma testa franzida, de um cú para fora e de uma barriga para dentro. Sim meu general, vou olhar noutro sentido. 
Esta noite, Clio não é nome de musa. Disso, elas nada sabem, nem elas nem os dois rapazes que as duas trazem sentados no banco de trás, e eu infelizmente não posso dizer o mesmo sobre o facto de nada saber. 

15.4.11

A senhora, pela terceira vez

Disse lá vai ele. Hoje leva o casaco de ontem, o chapéu de ontem, por cima do cabelo por lavar de ontem, caminha com o mesmo caminhar de ontem, nos mesmos sapatos e  vou jurar as mesmas meias pretas. De ontem. Os ricos tanto andam sempre de meias pretas que podiam usar sempre as mesmas, é até provável que as usem, os mais pobres de espírito, como este, o que vou seguir para ver onde vai, vou só pegar num xaile, tenho tempo de olhar ao espelho a nuca, de caçar o cabelo na rede, de tirar os dentes da boca, com tempo, porque ao ter apanhar o eléctrico de ontem, ele vai ficar sentado mais dez minutos da paragem, vai olhar para o chão, vai olhar o céu, sorrir aos pombos e eu, disfarçadamente como ontem, hoje não hei-de ficar à janela, hoje vou de eléctrico como tu, sentada ou em pé conforme tu estejas, descerei com os pés nos mesmos degraus, serei da cor da tua sombra, num tom mais transparente. Passo as gengivas pela água com elixir presa no lavatório, prendo os botões do casaco até cima, cuspo na sanita e ponho os dentes. Amarro um lenço na cabeça. Deixo as pontas caídas para trás e sigo em frente. Estás onde estavas e estás sentado. Não me pareces deste mundo. Disse, mas não ouviste. Disse para dentro.

4.4.11

A última parábola

Jesus, que não era cristo, mandou para a baliza um jogador que não era guarda-redes e este deixou entrar um bola que não era golo, chutada de uma forma que não era um remate. De um lado e do outro disseram à vez que o penalty não era penalty, e de um lado e do outro ainda disseram que o cartão vermelho também não era cartão vermelho.
A seguir a isto tudo, o jogo de futebol acabou e o campeão nacional já não era um, era outro. No estádio da Luz, já não era luz era escuro. Só faltava aparecer um treinador iluminado a dizer que não era electricista.

28.3.11

Homens em calções

Antes de o jogo de futebol ter chegado ao fim, o jogador com número onze nas costas, da equipa com camisola verde, calções pretos e meias brancas, pediu uma garrafa de água ao massagista, o massagista procurou ao lado do saco dos remédios no cesto das bebidas a mais cheia de todas, atirou-a para a frente, para as mãos do avançado que já vinha a correr e que estava a chegar já perto da linha lateral. Obrigado. Bebeu e pediu ao treinador para sair. Faltavam vinte minutos para o fim do jogo.

Não queria uma camisola suada colada nas costas, colada no peito, fria quando há fases menos movimentadas em campo. Não queria isso. Queria vestir roupa diferente de todas as pessoas que estavam por perto. Não tinha vontade de partilhar uma bola nem de andar para trás e para frente em grupo. Queria chegar, ficar sentado, fechar a porta.

Queres o quê? Quero sair. Estás cansado? Não. Estou farto.
Houve no ar, durante um minuto, o lado perturbador do silêncio, mas depois desse minuto, havia no ar uma placa electrónica com o número 11 assinalado pela junção de pontos vermelhos, ao lado do número 17 com pontos todos os verdes. Eram as cores na placa, o silêncio no ar e o barulho de pés rápidos e breves na relva a entrar em campo e o peso de pés lentos ao abandonar o jogo, a equipa, o futebol, a vida em grupo.

Em vez do balneário, preferia estar no quarto. Ou na sala. Onde tivesse de ser, desde de que fosse em sua casa e desde de que não fosse ali. Não queira o banho daquela água e já não sabia se estava a ouvir aquele som que vinha do campo e se aquele som que o golo tem quando sai da bocas de um grupo de pessoas era real ou se já eram palavras que inventava em cima de um papel, escondido das bancadas.

Tirou a camisola para a guardar num saco de plástico. Os calções e as meias ficaram no chão, em cima das chuteiras. Bebeu mais água, bebeu da torneira, rodou para fechar. Levantou a cara e olhou para o espelho. Estava embaciado. Antes assim. O que estava a ir embora passava então por ser o vulto de um homem anónimo.

Em casa trocou os pés pelas mãos. Escreveu as voltas que a vida dá para dizer as voltas que a vida deu. Disse o nome e disse a idade. Disse o sexo. Disse que tinha abandonado o futebol de uma vez por todas porque gostava mais de livros do que de balizas. Estava mais inclinado para as frases; as jogadas já não. Era um homem diferente, escreveu, contando onde estava quando decidiu trocar uma coisa pela outra, escrevendo que o jogo ainda não tinha chegado ao fim quando o jogador com o número 11 nas costas, da equipa com camisola verde, os calções pretos e as meias brancas, pediu água ao massagista e disse ao treinador que ia embora. Estava outra vez em campo. Riscou com mais força no papel com a caneta na mão direita, dominou a bola com o pé esquerdo, fintou, fintou dois e fintou três. O quarto desviou-o com o corpo. Chutou com força e foi golo. Tinha uma escrita previsível e um futebol virtual.

26.3.11

Emprestar amigos aos mortos

Não quero escrever um texto celestial. Não quero socorrer-me dos anjos, nem quero ver por perto nuvens brancas almofadadas. E não quero poder deitar-me sobre um colchão de penas. Quero acordar para a realidade, quero saber que vai doer e quero, sem ter medo, cair desamparado no chão duro dos dias.

24.3.11

O supermercado daltónico

Gulpilhares - Na cadeia de supermercados onde acabo de entrar, os cestos de plástico com rodinhas são verdes, mas estes não são, são cinzentos, e a troca inesperada de cor faz-me duvidar, quando me baixo para pegar na pega de um, do lugar onde estou, e eu, por um instante, interiorizo que me enganei e exteriorizo um gesto ao pousar o cesto e volto o olhar para a entrada e volto a ter a certeza de estar no lugar certo, porque as letras com o nome do lugar assim o dizem. O lugar está certo, eu estou certo. Errada está a cor cinzenta do cesto com rodas pretas.
Na prateleira onde estão os livros não há um livro capaz de me fazer esticar o braço, de o escolher, de o abrir, o folhear e o ler nos primeiros parágrafos. Ponto final na prateleira dos livros. A sair de lá para conduzir o cestinho daltónico até ao corredor do pão, levo de frente com uma funcionária, ela igualmente daltónica, numa farda azul, estranha à uniformidade verde de todos os outros supermercados com o mesmo nome e a mesma música e o mesmo anúncio e o mesmo imposto de valor acrescentado.

23.3.11

извините, пожалуйста

(ainda) Moscovo- Em não tendo como, nem por onde, entender,  ver é a solução, mas ver em observando com método e atenção. Acabámos de sair da estação de metro. Acabámos refere-se nós, nós refere-se aos quatro portugueses que somos à procura de uma rua. Rua da qual sabemos  detalhes essenciais, mas da qual não sabemos o todo. Sabemos a parte. E saber a parte se não revelou de todo insuficiente. Saber a parte já nos trouxe desde o hotel à estação de Teatralnaya, e da estação de Teatralnaya, logo a seguir ao teatro Bolshoi e após muitas perguntas debaixo do chão, perguntas feitas com um dedo em cima de um mapa-mini do metro, saber a parte acabou por nos fazer chegar à estação Biblioteka Lenina. Esta:

Queremos subir as escadas quando soubermos onde elas estão, as escadas correctas. Oito olhos no mapa, oito olhos nas placas, oito olhos no mapa, oito olhos nas placas, a comparar, a adivinhar e finalmente a desvendar o cirílico. Com maior ou menor engano chegámos ao ponto de encarar a luz do dia que existe para lá das velhas portas de madeira e que brilha nos vidros baços.
Na rua. Voltámos a estar na rua. Somos quatro e temos um mapa, mas somos portugueses e eles são russos. Somos portugueses e queremos ajuda em inglês, mas eles não querem. No meio deste desencontro já não há sequer quem páre para responder ao isco excuse me, please. Old Arbat está perto. O mapa diz que sim só não sabemos onde. Estão perto de nós os capecetes dos pilotos dos caças soviéticos. Estão perto de nós os bivaques, as fardas, o exército e a marinha. O comunismo há-de estar ali ao dobrar das esquina, só não sabemos onde. E é quando nos vem à memória uma frase batida. Uma frase que vem a correr de 2005 para salvar a situação. Uma frase utilizada pelo José Milhazes quando foi preciso chegar de carro a Novogorsk. A frase é a que está no título: извините, пожалуйста. Pronuncia-se mas ou menos assim: izbinit pajouste. E quer dizer: desculpe, por favor. Um senhor russo parou, olhou para o mapa e a falar em russo explicou como chegar à Rua Old Arbat. Eu disse sempre que sim com a cabeça e talvez tenha deixado sair um ou outro  да (diz-se dá, quer dizer sim), comunicando com o salvador da nóssia pátria de quatro portugueses sem tirar os olhos dos braços e das mãos do homem. Foi só virar à direita e voltar a virar à direita e lá estava a rua onde vendem as memórias do comunismo.

21.3.11

Movimentos circulares repetitivos

Andar à volta, passar ao lado, voltar ao princípio, chegar ao fim. Começar de novo. Subir, subir, subir. Cair. Dar um tombo, trambolhar. Correr para a frente, andar para trás, parar, arredondar. Andar à volta, passar ao lado, voltar ao princípio, chegar ao fim. Começar de novo. Subir, subir, subir. Cair. Dar um tombo, trambolhar. Correr para a frente, andar para trás, parar, arredondar. Andar à volta, passar ao lado, voltar ao princípio, chegar ao fim. Começar de novo. Subir, subir, subir. Cair. Dar um tombo, trambolhar. Correr para a frente, andar para trás, parar, arredondar. Andar à volta, passar ao lado, voltar ao princípio, chegar ao fim. Começar de novo. Subir, subir, subir. Cair. Dar um tombo, trambolhar. Correr para a frente, andar para trás, parar, arredondar. Andar à volta, passar ao lado, voltar ao princípio, chegar ao fim. Começar de novo. Subir, subir, subir. Cair. Dar um tombo, trambolhar. Correr para a frente, andar para trás, parar, arredondar. Andar à volta, passar ao lado, voltar ao princípio, chegar ao fim. Começar de novo. Subir, subir, subir. Cair. Dar um tombo, trambolhar. Correr para a frente, andar para trás, parar, arredondar. Andar à volta, passar ao lado, voltar ao princípio, chegar ao fim. Começar de novo. Subir, subir, subir. Cair. Dar um tombo, trambolhar. Correr para a frente, andar para trás, parar, arredondar. Andar à volta, passar ao lado, voltar ao princípio, chegar ao fim. Começar de novo. Subir, subir, subir. Cair. Dar um tombo, trambolhar. Correr para a frente, andar para trás, parar, arredondar.

20.3.11

A senhora, outra vez

Disse no dia em que vi pela primeira vez uma pessoa a morrer, os olhos dele estavam espantados como estavam espantados os olhos deste rapaz naquela manhã. Nunca mais me esqueço que eram dez horas porque vi o homem do correio quando eu estava a subir os degraus do eléctrico. Tive medo de poder estar a chegar uma carta registada e de ter de voltar a sair de casa outra vez no dia seguinte para a levantar no posto. Foi quando aquilo aconteceu sem aviso de recepção.

A senhora

Disse sou eu a vizinha e acudiu ao cobrador dos bombeiros voluntários, o homem de chapéu à polícia, de casaco à comandante de navio, de sapatos à patife, um homem à banda desenhada da cabeça aos pés, perdido no cimento do chão, dentro de uma roda de passeantes, transeuntes e moradores. Sou eu a vizinha de quem todos esses em redor lhe estão falar baixinho para eu não ouvir, mas como sou eu, a que ouve tudo, ora diga lá o que quer de uma vez que eu ouço este prédio por fora e por dentro

17.3.11

As bonecas russas

Moscovo - Ken, figura de plástico do imaginário infantil norte-americano, não existe na Rússia. Aqui as bonecas não ligam a rapazes de pólo anil, calças brancas drobradas nas beiras, sapatos de vela azuis com atacadores brancos em pele e sola da mesma cor e um pull-over rosa caído sobre os ombros, com as mangas apertadas no peito. Aqui as bonecas não ligam a esses rapazes de corte de cabelo engomado, a esses modelos tão limpos tão limpos que estão à beira de deixarem de ser rapazes para passarem a ser naturalmente raparigas.
Estas Barbies de pele e de carne e de osso e de cabelos verdadeiros e de pestanas verdadeiras, têm pedras preciosas no lugar dos olhos, mas não têm sucedâneos do amaricado, perdão, americano Ken. Estas Barbies não gostam muito de homens. Esta Barbies é mesmo possível que não gostem nada de homens. Elas gostam de cilindros, muitos, de bancos aquecidos em pele, de volantes grossos e carroçarias grandes. Gostam de pneus altos e largos. Gostam de vidros pretos e de modelos traduzidos em milhares de euros. Só no fim disto tudo é que guardam um bocado do acto de gostar e então gostam perdidamente do tipo mais baixo, mais velho, mais gordo que vai ao lado a conduzir a relação de interesses. E mais rico.
"As Bonecas Russas" é o título de um filme francês que faz a continuação, cinco anos mais tarde, do filme "A Residência Espanhola". È sobre a tentattiva de um jornalista reconciliar o trabalho, a escrita e o amor. Da minha parte posso dizer que não vinha a Moscovo há cinco anos.

16.3.11

Os caminhantes

Moscovo - Em contraponto vertical aos profissionais sentados, encontram-se de igual forma em número assinalável, homens e mulheres, amadores em pé, com um livro na mão. Amadores no sentido de amantes, pessoas que gostam sem saber como, sem perguntar porquê. Uma das actividades observável num russo enquanto caminha é a capacidade de continuar a andar com um livro aberto por uma mão, colocado por essa mão em frente aos dois olhos, continuando a caminhar no mesmo passo de quando os olhos estão de horizonte desimpedido. Com os livros em frente seguem o caminho e ao seguirem estão a fazer ensaios sobre a cegueira, embora aquilo não seja um ensaio, seja a realidade a acontecer, seja o rapaz de casaco militar e pernas finas a ser levado pelos outros sentidos para escadas rolantes do metro como se aquele seu corpo fosse um tronco perdido à mercê da natureza nas cataratas de Niagara. E aqui vem ele, com o cabelo riscado ao lado, aqui vem ele a descer nesta escadaria a pique, enquanto eu subo e os dois neste cruzamentos somos duas diagonais que nunca se vão tocar, mas que tocam. Porque ele ao ir à sua vida está a ir e ao mesmo tempo a ficar na minha, está a entrar nestas linhas, a ficar guardado para sempre na minha memória. Agora é a vez de uma rapariga loira escutar o sinal verde para peões e passar por nós que estávamos parados a encarar a mudança de cor do sinal e a ganhar vantagem porque só agora estamos a arrancar. Tem uma gabardine cinzenta amarrada por um cinto cinzento e deixa-se seguir no trote de um par de botas cinzentas. Leva um livro em frente ao rosto. Desconheço o conteúdo, desconheço o autor, desconheço até a língua e desconheço o título. Não sabendo uma vírgula dessa história, sei o suficiente para dizer que em todas aquelas páginas há a magia que lhe permite caminhar de olhos fechados.